Dermatite fitogênica por uso de aroeira
em gestante com hanseníase. Relato de Caso.
"Phitogenic dermatitis by use of aroeira in a pregnant woman with hanseniasis. A case report".
Autores : STEFAN WELKOVIC
CÍCERO F. F. COSTA
IARA P. SANT’ANNA
PAULO R. DE M. GUEDES
Trabalho realizado na Maternidade da Encruzilhada – Maternidade Escola da Faculdade de Ciências Médicas de Pernambuco, Universidade de Pernambuco, Recife, PE.
Endereço do Autor:
Av. Gov. Agamenon Magalhães 2714, apto. 702 – Espinheiro
52020-000 - Recife PE
e-mail: stefan@mq.nlink.com.br
RESUMO
O uso indiscriminado de plantas para banhos de infusão é de prescrição comum entre os ginecologistas, principalmente para pacientes de baixa renda. Estas plantas, podem causar dermatites de contato e reações de fotossensibilização com destaque para aquelas da família das Anacardiáceas (aroeira, caju-roxo etc). Descrevemos um caso de fotossensibilização em paciente portadora de hanseníase que fez uso tópico de aroeira.
UNITERMOS: fotodermatites, aroeira, gravidez, alergia, hanseníase
SUMMARY
Plants infusion
for baths are commonly prescribed by gynaecologists,
mainly for that patients who doesn’t have conditions to buy more expensive
drugs. These plants can provoke contact dermatitis and photosensitivity
reactions, specially those of the Anachardiacea
family (aroeira, caju-roxo
etc). We describe a case of photosensitivity on a patient with Hansen disease,
who made topical use of aroeira.
KEYWORDS: photodermatitis, aroeira,
pregnancy, allergy, Hansen disease.
Dermatite fitogênica por uso de aroeira
em gestante com hanseníase. Relato de Caso.
"Phitogenic dermatitis by use of aroeira in a pregnant woman with hanseniasis. A case report".
INTRODUÇÃO
No dia-a-dia dos ambulatórios da rede pública é comum aos ginecologistas se defrontarem com pacientes cujas condições financeiras não permitem a aquisição de medicamentos, mesmo aqueles de preço irrisório. Uma alternativa, usada há muito na medicina popular, é o uso de infusões de plantas comumente encontradas na região, que aparentemente são inócuas ao organismo, em especial para o tratamento das leucorréias. São os populares "banhos-de-assento" com aroeira, caju.roxo etc.
Sabe-se, entretanto, que plantas de diferentes espécies podem causar erupções cutâneas conhecidas como dermatites fitogênicas, muitas vezes de caráter grave 1. Os ginecologistas não têm tomado conhecimento destes malefícios, vez que as conseqüências deste mal-uso são diagnosticadas pelos dermatologistas.
Uma dermatite alérgica de contato é geralmente a responsável pelas lesões cutâneas provocadas pela manipulação de plantas. Um contato prévio com a planta, ou espécie semelhante, pode fornecer a substância antigênica envolvida no processo. Isto pode acontecer num período de sete a dez dias após o primeiro contato, ou até mesmo anos após a exposição.
As plantas da família das Anacardiáceas são as causadoras da maioria dos casos de fitofotodermatites no continente americano, sendo as do gênero Rhus (hera venenosa e aveia venenosa) as mais comuns nos EUA. No Brasil existem muitas Anacardiáceas ( caju, cajá, manga, umbu, bálsamo-das-missões, quebracho) sendo a aroeira a mais comum delas (Schinus molle, Lithraea molleoides, L. brasiliensis, S. weinmannioefolius, Astronium orindeuva e Schinus therebinthifolius). Na medicina popular ela é usada através de cozimento da casca ou folhas para acelerar o processo cicatricial, no tratamento de úlceras, dores articulares, erisipela, corrimentos genitais, e também como chás para controlar diarréia, bronquites, orquites e inflamações do trato genital feminino3.
O uso de cozimentos para banhos de assento pode determinar uma reação tópica por contato direto. Quando a dermatite se segue ao contato com a erva, a reação vulvar é semelhante àquelas encontradas em qualquer parte do corpo. No entanto, a reação de fotossensibilização pode assumir feição grave e é de tratamento complexo, com quadro de prurido intenso seguido de lesões eritemato-vésico-bolhosas ou eritemato-descamativas pruriginosas, distribuídas em áreas foto-expostas, com sensação de queimação que piora com a exposição solar.
O objetivo do estudo em epígrafe é mostrar em detalhes um caso singular de dermatite fitogênica, onde se descreve o quadro clínico, bem como se põe em evidência o procedimento terapêutico empreendido.
CASO CLÍNICO
GSA; Registro 130986; 29 anos, solteira, negra, doméstica, procedente da sua residência. Tipo sangüíneo A positivo. Chegou ao Serviço no dia 02.10.94 às 1:40 h, com história de amenorréia de 8 meses, queixando-se de dores no baixo-ventre (discretas) tipo cólica e perda de líquido amniótico há 19 horas. Não fez pré-natal. Data da última menstruação:18.02.94. Relatava episódios febris durante os últimos 15 dias. G5 P4 AO. Primeiras dores em 01.10.94. Ao exame apresentava as mucosas coradas, pulso de 76, afebril, PA=120X70 mmHg. Edema de membros inferiores. Útero globoso a 29 cm acima do bordo superior da sínfise púbica. Tonus uterino fisiológico, não tendo sido realizado o toque bimanual combinado; feto em situação longitudinal, esquerdo, cefálico, Batimentos cárdio-fetais de 136 por minuto no quadrante inferior esquerdo. Bolsa rota.
Teve como hipótese diagnóstica gravidez única tópica de 32 semanas e dois dias, bolsa rota e trabalho de parto prematuro com dermatopatia a esclarecer.
A paciente pariu um feto vivo prematuro do sexo masculino em 04.10.94 após permanecer em enfermaria de alto-risco durante este período.
Apresentava lesões hipercrômicas disseminadas, de bordos elevados, com discreta infiltração. Também foram observadas lesões infiltrativas na face, pavilhões auriculares e madarose, descamação laminar em membros inferiores com áreas infectadas. No interrogatório sintomatológico a paciente referiu uso prévio de aroeira no inicio do aparecimento das lesões infiltrativas do corpo. Foi realizada antibioticoterapia profilática com ampicilina devido à amniorrexe prematura, a qual foi mantida durante o puerpério por tratar-se de paciente de risco para infecção puerperal. Teve alta em boas condições no 5° dia de internamento hospitalar. Ainda internada, foi examinada pelos dermatologias do Serviço, que chegaram à hipótese diagnóstica de eczema infectado de membros inferiores e fotodermatose por uso iatrogênico de aroeira, além de Mal de Hansen na forma virshowiana e disseminada.
A conduta foi solicitar uma pesquisa de BAAR, para iniciar tratamento da hanseníase após o parto, ampicilina para o eczema infectado (já estava sendo administrada devido à amniorrexe prematura existente) e compressas de permanganato de potássio na diluição de 1:10.000, morno, 3xdia. Creme de corticóide para usar após as compressas e prednisolona 20 mg/dia.
Foram realizadas as recomendações dos dermatologistas e após o parto foi iniciado esquema de dapsona, clofazimina e rifampicina, conforme normas da Cordenação Nacional de Dermatologia Sanitária/Ministério da Saúde-Organização Mundial de Saúde, para pacientes multibacilares.
Os exames complementares revelaram: BAAR/Média Índice Bacilar=2.0, PCR positiva (24 mg/ml), hemograma com 5600 leucócitos, 4 bastões/80 segmentados. Hemácias=3.100.000, Hb=9.3 g, Ht=28.
DISCUSSÃO
Este caso tem a singularidade de nos revelar que medidas supostamente simples, como o uso de banhos de assento com infusões de ervas populares, pode determinar complicações sérias, de tratamento difícil, quando o profissional de saúde desconhece seus efeitos adversos.
A disseminação e a cronificação das lesões, podem levar inclusive ao acometimento de áreas protegidas do sol, muitas vezes culminando com internamentos hospitalares. Há descrições de casos que evoluíram para um quadro de dermatite actínica, apresentando uma eczematização crônica, mesmo sem voltar a ter contato com a substância causadora da fotossensibilização1. Diversas hipóteses tentam explicar tal condição, como a presença na pele de fotoantígenos persistentes, ingestão ou contato com substâncias capazes de gerar reações cruzadas e alterações estruturais na pele que a levem a tornar-se antigênica e geradora de fotoprodutos1.
Não sabemos se a intensa reação alérgica desencadeada pela aroeira nesta gestante tenha sido a causa do parto prematuro, porém sabe-se que reações anafiláticas podem ser responsáveis por abortamentos, graças à liberação de histamina que aumenta a contração da fibra muscular lisa, determina vasodilatação capilar, aumento da permeabilidade capilar e hipersecreção glandular 2.
Acreditamos que a descrição de casos de dermatites fitogênicas é de grande importância no Brasil, devido ao uso corrente de plantas na medicina popular. Agrava a situação o fato de diversos extratos dessas plantas serem utilizados em medicamentos, cosméticos e outros produtos manufaturados, contribuindo para um número crescente de dermatites alérgicas de contato2. Cabe ao tocoginecologista conhecer profundamente o seu arsenal terapêutico, para que se evite o uso de tais ervas, pois as mesmas podem causar casos graves de fotossensibilização.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Fig. 1: Lesões hipercrômicas disseminadas em abdome
Fig. 2 – Lesões hipercrômicas com discreta descamação laminar em membros inferiores